Sábado, 9 de Fevereiro de 2008

Achados no baú (6)

                                                                                                                                  «A certa altura da sua carreira, George Russell decidiu abandonar a bateria e passar à composição e ao arranjo instrumental. E todos ficámos a ganhar com isso!»

Foi este o destaque que escolhi para a recensão crítica -  publicada no nº. 79 (25.09.99) do DNMais, então suplemento de música e outras artes do Diário de Notícias  - que  escrevi a propósito de New York, N.Y., um notabilíssimo disco publicado nessa época em reedição e que é, ainda hoje, um dos meus «discos de cabeceira».

Um álbum que reflecte bem o alargamento a outros horizontes do panorama, já de si riquíssimo, que o jazz conhecia nos EUA, na passagem dos anos de 1950 para 1960.

_____________________________________

 

Da arte da escrita

 

O mês de Março de 1959 foi um ano decisivo para o jazz moderno: no dia 2, Miles Davis entrava pela primeira vez em estúdio para a primeira de duas sessões de gravação de um fabuloso álbum da sua discografia, o indispensável Kind of Blue; e três semanas mais tarde, a 26, John Coltrane começava a gravar outro disco-referência da época, o fulgurante Giant Steps.
 
Para além das coincidências reveladas no mero registo factual destas datas, destacadas nas notas do produtor Stewart Levine, é também significativo que dois músicos que tanto contribuíram para a transformação destes registos discográficos em dois momentos-chave da história do jazz -  John Coltrane e Bill Evans  - tenham ainda tido tempo para autenticarem com a sua chancela uma outra experiência, agora no campo do jazz composto e escrito para grande orquestra: o álbum que George Russell laboriosamente congeminou e ao qual deu o título New York, N.Y..
 
Os tempos da adolescência de Russell -  que foram, ao mesmo tempo, os dos seus primeiros passos no jazz  - viram-no interessar-se de início pela bateria, chegando a tocar na orquestra de Benny Carter. Mas foi ao chegar a Nova Iorque em 45 e após ter visto e ouvido Max Roach que o jovem músico tomaria uma decisão de fundo: desistir de tentar fazer o que outros faziam bem melhor do que ele e passar a uma outra via de expressão musical, a da composição orquestral.
                                                                                         
A verdade é que os primeiros trabalhos nesta área começaram a chamar as atenções de vários músicos para os talentos de George Russell, a começar pelo próprio Benny Carter, seu patrono de sempre. Mas também as suas experiências orquestrais para as formações de Earl Hines ou Dizzy Gillespie e mais tarde de Buddy DeFranco ou Lee Konitz, bem como a intensa participação no âmbito de um grupo de compositores como John Lewis, Gil Evans, Gerry Mulligan ou John Carisi, acabaram por constituir as traves mestras do seu edifício conceptual.
 
Uma obra que não apenas começava a ter os seus primeiros afloramentos em termos práticos mas também em termos teóricos com o desenvolvimento de um original método de abordagem da tonalidade concretizado numa tese que George Russell denominou o Conceito Lídio de Organização Tonal.
 
Embora integrada neste novo conceito de composição e longinquamente inspirada na tradição das grandes suites de Duke Ellington, julgo que esta interessante peça New York, N.Y. não chega, apesar de tudo, a atingir a importância decisiva de outras obras posteriores do compositor.
 
Por um lado, a unidade interna das várias peças que a compõem é facultada muito mais pela intenção programática que o texto de ligação a cargo de Jon Hendricks lhe confere do que pela confluência e interacção de elementos especificamente musicais, apesar de verificar-se uma coerência interna já assinalável.
                                 
 
Por outro lado, nem todas as peças constitutivas desta obra são da autoria de George Russell, embora deva reconhecer-se serem a radical transfiguração de Manhattan (Rodgers e Hart) ou a inventiva apropriação de outros dois standards como Autumn in New York (Vernon Duke)  ou How About You  (Burton Lane) claros exemplos de uma indesmentível postura de autor.
 
Desde a interessante alternância das atmosferas sonoras de Big City Blues até ao impetuoso brilhantismo instrumental de A Helluva Town, passando pelos contrastes entre o sincronismo «vertical» da componente rítmica de Manhattan-Rico e o deslizar «horizontal» do seu desenvolvimento temático -   George Russell começava a revelar-se aqui um inovador harmónico e tímbrico de elevada estatura.
 
Sem jamais deixar de conferir largo campo livre ao verdadeiro «sal» da improvisação dos solistas principais, neste caso tanto mais relevante quanto eles se chamavam  (para além dos já mencionados Coltrane ou Evans)  Benny Golson, Bob Brookmeyer, Art Farmer, Phil Woods ou Max Roach, a sobressair de um naipe de músicos de estante a todos os títulos notável.
      
 

George Russell
New York, N.Y.
Edição original: Decca (1959)
Reedição: Impulse! (1998)
++++

 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 09:48
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Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2008

Achados no baú (5)

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Sábado, 8 de Setembro de 2007

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